Do seu apartamento, ele via quase todo mundo. Quem entrava, quem saía, quem demorava mais do que devia. Tinha um álbum escondido embaixo da cama, cheio de fotos do prédio. Gostava especialmente das que tirava das pessoas que ele chamava de "simples". A janela do seu apartamento no Edifício Cláudio pegava uma boa visão do prédio azul claro da frente, o Marcelo. Dava para ver o playground, toda a área do pátio na frente do prédio e, claro, as janelas.
Ele eternizava todo o tipo de momento, crianças brincando, casais brigando, gente voltando tarde da noite, pessoas que deixavam a toalha cair. Ele morava ali, no 1502, desde que o prédio foi construído e se orgulhava de deixar o seu apartamento exatamente como lhe foi entregue. Uma relíquia para além dos tempos, ele dizia.
Raul tinha uma Olympus OM-1 que seu pai trouxe do Paraguai em 1985. O que era um presente para fazer o filho sair um pouco de casa e socializar um pouco mais, logo se tornou sua obsessão. Algumas pessoas sabiam que ele era fotógrafo, ele vivia de alguns trabalhos em casamentos, formaturas e festas de 15 anos, mas sua verdadeira paixão era fotografar as pessoas sem que elas soubessem.
Para ele, a beleza estava em capturá-las em seu estado natural, desprevenidas. Odiava a vida ensaiada, os risos falsos, as poses premeditadas.
Ele tinha álbuns embaixo da cama com os nomes dos prédios do conjunto Júlio César, todos eles que comprou de uma coleção em que a capa trazia um monte de lápis de cor, porque, para ele, era assim que ele definia aquele conjunto de prédios coloridos que cortavam os céus do bairro da Pituba, Caixa de Lápis de Cor.
Foi assim que ele se aproximou de Vandinha. Primeiro eram apenas fotos casuais dela limpando as janelas do 1604 no Edifício Marcelo. O ângulo que tinha da janela do seu quarto era perfeito. Ela se equilibrava no parapeito com uma coragem que ele admirava, mas jamais teria.
Com o tempo começou a notar os detalhes. Ela só tinha aquelas sandálias baratas brancas com tiras azuis e prendia o cabelo num coque frouxo. Raul esperava, às vezes, o vento desfazê-lo para só então clicar. Ele já tinha tantas fotos dela, que já estava pensando em comprar um álbum apenas para Vandinha.
Sua gaveta estava amontoada com fotos dela. Algumas tremidas, outras perfeitas. Pegou ela sorrindo, conversando com a mulher do Tarot no playground uma vez, segurando a barriga na janela, no quarto de seus patrões. Tinha uma que ele adorava, ela rindo com outras duas garotas, uma moça que trabalhava como ela em algum dos apartamentos do prédio da frente e aquela menina bonita que o pai tinha um Fiat-147 verde.
Algumas fotos que tirou dela o irritavam, em especial com o filho do patrão da garota. Aquele playboy metido a merda que só sabia gastar o dinheiro do pai com droga nas festinhas que rolavam no Túlio e no Constantino. Ele guardava tudo para o momento certo.
Raul conhecia os podres dos Freitas. Tinha registrado tudo na sua Olympus. O patriarca da família voltando bêbado do Bar, as marcas no rosto de sua esposa depois das discussões. Diego olhando para Vandinha, com aqueles olhos podres. Tudo estava ali, guardado em negativos que ele podia revelar quando quisesse.
Raul armou os encontros "fortuitos" com Vandinha para parecerem coincidências, mas ele vigiava os passos da garota. Conquistou sua confiança aos poucos. Lhe prometeu que tinha como lhe livrar daquilo tudo, não foi difícil, só exigiu um pouco de tempo e paciência, e isso ele tinha de sobra. Ele sabia muito bem esperar o momento certo.
O plano foi elaborado, tudo estava no lugar certo. A cópia da chave da casa dos seus Freitas foi feita num dia que ela foi ao mercadinho. Vandinha tremia feito vara verde, mas a verdade é que a cópia ficou pronta antes mesmo dela terminar de fazer as compras.
Só que quando Raul viu a menina ali, pronta para fugir com ele — para onde, não sabia ainda, mentiu para ela — quando tudo parecia fácil demais, seu interesse murchou. Como aquelas plantinhas que tinham no jardim do Cláudio e se fechavam assim que ele tocava nelas.
Para completar, a luz naquele fim de tarde estava maravilhosa, ela batia na janela como um sinal divino. Ele precisava registrar aquele momento, mais que tudo nessa vida.