Ele chegou no jardim antes de todo mundo. Estava encostado atrás do balcão da portaria quando ouviu a porrada seca que fez até as paredes do playground estremecerem. Outra vez. Foi a primeira coisa que veio à sua cabeça.

Olhou para cima e viu o rosto do garoto na janela, os olhos arregalados. Ele contou os andares de cima para baixo e voltou para dentro do prédio. Quando retornou, Gambiarra já estava com a lona preta debaixo do braço e a pobre menina, tão jovem, tão bonita, prensada no chão que nem um carimbo. Antes de terminar de cobrir seu corpo, o povo apareceu, de todos os lados, como urubus atrás de carniça.

Para ajudar a segurar a lona, nenhuma alma, mas para ver a desgraça alheia, ah, para isso eles sempre estavam prontos.

Gambiarra conhecia cada morador daquele prédio. Sabia quem atrasava o aluguel, quem não pagava condomínio fazia mais de ano, quem trazia visitas "desconhecidas" tarde da noite, quem preferia subir as escadas para não cruzar com certas pessoas no elevador. E no dia que Vandinha caiu, ele sabia que Luís Freitas não estava no mercado coisa nenhuma. Outra coisa que ele sabia também: quanto menos ele se intrometia na vida daquelas pessoas, mais perto ele ficava da sua tão sonhada aposentadoria.

Enquanto os moradores e outros curiosos que nem do prédio eram cochichavam como Carcarás famintos, ele olhava para o amontoado de gente nas janelas, menos na do 1604. Seu Freitas tinha o costume de deixar as crianças na escola ou sua esposa no mercado e "fazer hora" no bar ao lado do prédio. Naquele dia não foi diferente, ele estava lá, batendo ponto como sempre.

Assim que ele pegou a lona e terminou de ligar para a Polícia, Seu Freitas passou direto para o elevador de serviço. Os dois se olharam por um ou dois segundos e Gambiarra apenas assentiu com a cabeça. Não precisava falar mais nada, já tinha entendido. Depois daquele dia, os filhos de Freitas demoraram a voltar para o prédio e ele, sem nem abrir a boca, garantiu mais um pedacinho da sua casa na ilha, em Cacha-Pregos.

Ele já tinha sacado há muito tempo que Diego, o filho mais velho de Freitas que Carmen acolheu como sendo seu, vinha agindo estranho nos últimos dias. Gambiarra não entendia como pessoas que tinham tudo na mão ainda diziam ter problemas, ele tinha certeza que eles inventavam ou caçavam sarna pra se coçar.

Direto ele pegava Diego e Vandinha discutindo no prédio. Uma vez, ouviu gritos vindo de dentro do apartamento 1604. E o jeito que Freitas olhava para ela? Desde que ela era ainda uma criança. Bem, ela ainda era uma criança quando a viu no chão. Para completar, tinha Dona Carmen, com sua voz doce e seus olhos que pareciam de vidro. Ele tinha certeza que ela sabia tudo o que acontecia em seu apartamento, mesmo quando estava fora. Sabia do marido, dos seus filhos, duas pestes. Ela sabia sim, ninguém pode ser tão tapado.

Tinha suas próprias teorias sobre o que aconteceu com Vandinha, se o perguntassem e ele fosse um deles, com a vida ganha, com as costas quentes, ele diria tudo o que sabia, daria as pistas, o resto a polícia iria cuidar. Ele já viu uma vez uma pessoa que pulou lá do terraço do prédio. Depois desse dia, eles tiveram que acorrentar a entrada e passar dois cadeados, dos grandes, para ninguém acessar aquela parte do edifício. E ele também sabia que acidentes acontecem, que pessoas podem cair de lá de cima, ainda mais nessa altura toda, dá vertigem, o chão às vezes chama. Só que alguns "acidentes" são provocados por outras pessoas que não as vítimas.

Todo mundo ficou certo que foi uma fatalidade, um infortúnio da pobre menina. A polícia, o legista, inclusive os moradores que cansavam de vê-la dependurada na janela limpando os vidros. Algumas pessoas que lhe alertaram antes, agora, se faziam de sabichonas. Estufavam o peito e saíam garganteando que "tinham avisado a ela que era perigoso" que "já sabiam no que ia dar", que "a culpa foi dela mesma". Até Carmen disse, para a vizinha, o quanto ela falava para a menina, que era como se fosse da família, o perigo que era o que ela fazia, que não precisava se esforçar tanto. A cara da madame nem ardia.

— Soube de mais nada não, senhor.

Foi tudo o que Gambiarra disse para a polícia naquele dia, ao olhar agradecido de Freitas. No final, o que iria adiantar? Aquela investigação não era do interesse de ninguém que tivesse condições de ter um tratamento digno ou justo.

Ele só ficou triste por não ter conseguido lhe cobrir melhor. E ele estava pensando nisso, que já seria bom separar uma lona maior, mais grossa e algumas pedras no quartinho da zeladoria do edifício. Seria útil, afinal, nos dez anos que estava trabalhando ali, foi a quarta vez que presenciou uma queda fatal. Nas redondezas, o Parque Júlio César já era chamado na boca pequena de "O Vale dos Suicidas".

Nem novidade era mais. Para ele não, mas para Camila, que tinha quase a mesma idade da menina, era uma tragédia que lhe tirou do prumo. E ela ficava lhe rondando, todos os dias, desde quando o vento levantou a lona e ele percebeu a garota parada, encarando o corpo como se estivesse tentando resolver um quebra-cabeças.

Ele desviou o olhar, não queria ser alvo de perguntas, não naquele dia. Os jovens dali tinham muito tempo livre e viam mais do que podiam.

Sempre que iniciava um novo dia de trabalho, agora, Gambiarra carregava o peso das palavras que não podia mais falar. O fardo de carregar mais um segredo. Ele sabia como o silêncio ia criando um muro, igual a sua laje, tijolinho a tijolinho.

Na sua casa da ilha o sonho era reunir a família, ali, no prédio dos almofadinhas, o que ele via eram apenas pessoas desviando-se de suas responsabilidades, se livrando da culpa como quem tem o privilégio de poder parar num bar para tomar uma cerveja num dia de terça-feira.

Camila desceu mais tarde naquele domingo, ela agora andava com um caderninho e uma caneta na mão. Ela achava que podia ser uma detetive como aqueles dos filmes que via na Sessão da Tarde. Ela saía de um lado para o outro, desenhando, anotando coisas, falando sozinha ou perguntando aos moradores.

Se ela passasse dois dias com ele, só dois dias pegando os ônibus que ele pegava pra ir e voltar de Itacaranha, ela entenderia o que é a vida.

— Não acredito que ninguém fale mais nada, sequer lembre dela, sabe? Não faz nem uma semana. — Camila disse, com a mão manchando a porta de vidro da portaria.

— Todo mundo esquece rápido, ainda mais quando é alguém assim.

— Assim, como?

— Como ela.

— Oxe, mas isso tá errado. — Gambiarra queria concordar, mas calado ele vencia, Camila esperou ele falar algo, mas vendo que ele só alisava seu bigode, continuou — Tem algo que não viram nisso tudo, eu conhecia ela. Pouco, mas conhecia, ela não ia se jogar de lá, sabe?

— Pode ter escorregado, não?

— Não sei, se fosse isso não acho que ela cairia daquele jeito, sabe? Eu acho que tem algo mais que estão escondendo.

— Sempre tem algo que não nos falam, nisso você tá certa. E quem sabe, não fala.