Sua mão esquerda era uma garra de arame e plásbio — lembranças de um tempo mais antigo que as tempestades de sílica. O veículo rugia como um animal encurralado e o vento assobiava em dialeto vêneto. Marina sabia que era tudo culpa de Gio, projetando seus demônios na tormenta seca e quente. Italianos e suas manias.
— Somos apenas remendos — Marina deixou escapar, o olhar fixo na mão biomecânica que faiscava no volante.
O rádio ainda cuspia estática. Não adiantava girar os botões.
— Eva que me pariu! Merda, de novo! — o velho gritou, olhando para trás.
Uma voz sintética e monótona interrompeu a frequência. Era robótica demais para ser humana, humana demais para ser uma máquina terminal.
“Código 1982. Autorização E.V.A. Confirmar, sim ou não?”.
Gio bateu no painel com força e urrou. Tinha usado a mão de verdade.
— São as mesmas coordenadas. Era pra ser aqui, mas… — Marina apertava o botão emperrado do seu tablet com ódio — Não vejo o Atlas, nem os painéis de sombra.
— Painéis? Aquilo é um tumor. Andiamo!
O veículo sacudiu e Marina deu um pequeno salto. Procurou com as mãos o banco, mas ela já estava quase batendo a cabeça no teto. Numa rachadura que dividia o para-brisa, ela viu o reflexo da tempestade se organizando em formas hexagonais. Sílica inteligente, pensou.
O legado maldito do projeto Atlas devorava tudo que tocava. As mesmas nanopartículas programadas para limpar a atmosfera se multiplicavam como cupins.
O tablet acendeu depois de Marina o jogar no chão, mostrando o logo de uma astronave envolta num coração pulsante. As coordenadas do GPS pareciam as mesmas, mas agora, o que se via da tela — rachada após o impacto — era a palavra calculando. Alternando em cores que ela nem sabia que existiam.
— As coordenadas ainda estão…
Antes de Marina concluir, um jato de sílica atingiu o para-brisa. A lata velha deslizou para a direita, onde fica o cemitério de salitre. O cheiro de ferro e sal fez o estômago da garota chamar um líquido quente e ardido.
O número 1982 piscou no painel — o mesmo da chamada do rádio — e aquilo era uma novidade naquele mundo apagado.
Gio corrigiu a rota virando um pouco para a esquerda, evitando a descida para o vale enferrujado e retorcido, mas só por um instante.
— Não é uma tempestade. È un pastore.
Gio colocou sua mão morta espalmada no vidro, abriu os olhos para a garota solta no carro em um aviso silencioso e girou o volante bruscamente com sua mão viva.
— Um o quê?!
A jovem soltou o tablet que rolou pelo assoalho mofado e abraçou o banco. Os cabelos brancos do senhor biomecânico dançavam com o vento que soprava da fresta da sua porta presa por cordas.
— Pastore! Ovelhas, Marina! Ela não está lutando contra a gente. A tempesta está nos encurralando, guiando para algum lugar.
Um frio na barriga surgiu como um relâmpago e Marina soltou um grito seco enquanto o carro descia a ribanceira. Tudo batia dentro daquela lata velha. Os vidros, as portas, o assoalho, os cacarecos que eles colecionaram ao longo de intermináveis ciclos.
A tempestade inteligente abria um corredor à frente, como se toda aquela areia estivesse sendo puxada por uma espécie de ímã. O tablet já tinha ido pro caralho; pedaços retorcidos de metal empenado batiam em todos os cantos do veículo.
Gio ria como um tolo e Marina colocava as mãos no rosto, esperando o para-brisa ceder a qualquer momento. No fim de toda aquela barafunda, uma estrutura opaca se erguia. Mais escura que o céu. Dentes de metal retorcidos contra as nuvens carregadas e cinzas. Pareciam mãos esqueléticas levantadas em louvor.
— Os painéis de sombra, veja… — Marina sussurrou.
— Ou a boca do inferno. — Gio respondeu, pisando fundo no acelerador.
O veículo avançou pelo corredor de vento. Marina nem teve tempo de pensar se tudo aquilo era mesmo uma escolha ou rendição. O carro se desfazia uma lasca de cada vez até parar. Morto.
A tempestade fechou-se atrás, cercando-os de todos os lados, e a estação solar surgiu como um pesadelo no deserto. Doze quilômetros de painéis escuros enterrados na areia, engolindo o resto de luz que ainda existia. Pequenas descargas elétricas beliscavam o carro do lado de fora. Gio observava tudo com admiração, aguardando o momento mais seguro de sair. Quando elas se dissiparam, abriu a porta com um chute violento.
O veículo que um dia foi branco ainda apresentava as faixas azul e vermelha na lateral. No meio da porta, entre as faixas, dava para ler no decalque que ficou: A-2025.
Marina pulou para o banco do motorista e desceu logo em seguida. Lá dentro o ar cheirava a ozônio e carne queimada. A estação era um cadáver tecnológico. Era como se eles tivessem viajado para o passado, para alguma era tão antiga quanto as lendas.
Caminharam sobre toldos corroídos até chegarem a um pátio lotado de painéis negros. Eles sugavam a luz ao invés de refletí-la. O piso rangia igual a galho seco a cada pisada.
As iniciais E.V.A. estavam marcadas em diversas estruturas e equipamentos. Marina olhava tudo sem abrir a boca, sem emitir nenhum som além da sua respiração rasgada.
— Engodo Verificado Automaticamente — Gio disse em voz alta.
Marina sequer olhou para ele. Estava farta das piadas fora de hora, dos seus dentes amarelos, daquele mau hálito e daquela barba rala. Se fosse mesmo o seu pai, ela já teria dito tudo isso a ele; afinal, a gente só fere aqueles que amamos.
O rádio do veículo iluminou o ambiente à distância, um coração vacilante pulsando na penumbra. O velho correu para o carro, decidido. Os nanos circundavam a lataria enferrujada como urubus vigiando carne em putrefação.
A porta caiu no chão assim que Gio a puxou. Esquecendo da urgência do momento, ele se perdeu por um instante, vendo ela ser consumida — aquele som agudo e repetitivo de metal sendo transformado em mais um punhado de nuvem inteligente. O velho olhou para trás e balançou a cabeça para Marina. Um adeus?
Uma súbita rajada de vento bagunçou o seu cabelo e o deixou cair novamente, armado, selvagem. Com a mão livre, Marina tirou os poucos fios perdidos nos olhos e só então voltou a notar o velho sumindo para dentro do carro em decomposição. Um chiado ritmado ecoava do A-2025.
— Gio! Sai dessa porra!
O velho virou o rosto para a jovem. De onde ela estava, não dava para ter certeza, mas ele sorria. Os dentes podres iluminados por um brilho âmbar que consumia o carro de dentro pra fora. O veículo da Elite Táxi tremeu.
Sombras dançavam ao ritmo de uma antiga música sendo domada por estática. Antes do zumbido cessar, uma massa pulsante de fios e sílica grudada, primeiro no motor, escorria como seiva. Era quente. Cheirava a mel podre.
O útero.
Marina apertou o tablet rachado numa tentativa vã de suprimir a dor que a corroía.
— Isso não é tecnologia. É…
— Vida. La vita, Marina! O Atlas não criou painéis solares. O que eles desenvolveram foram colhedeiras de vida.
O rádio sibilou. Ao redor da tumba tecnológica, a voz que era do projeto Atlas ecoou de pequenas partículas que formavam som, vindo de lugar nenhum. De todos os lugares.
Um estampido ecoou aos quatro cantos. Em menos de segundos o veículo havia sido consumido, deixando para trás uma pequena estrutura estilhaçada de componentes de plásbio e restos de circuitos. Tudo aquilo reduzido apenas a um casco — uma lápide de metal.
Havia algo naquela voz. Não era sua sonoridade em si; era o jeito de falar, as palavras escolhidas. De alguma forma não era — apenas — o projeto Atlas. Ela trazia consigo uma tristeza peculiar.
Marina correu para longe dos painéis. Achou um elevador com a porta entreaberta. Ela abriu caminho com seus braços finos, com medo de quebrá-los, até conseguir espaço suficiente para empurrar com o corpo.
O elevador estava ali, mas não por inteiro. Sua outra metade estacionou mais abaixo. A jovem não pensou; apenas se jogou e caiu estirada no chão. Tudo que ainda estava vivo nela doía. As nanopartículas de sílica batiam na porta de ferro. Era questão de tempo, muito pouco tempo, para terminarem o serviço.
Marina se levantou com dificuldade; cada músculo ardia como se tivesse sido esmagado. O elevador quebrado era agora sua única barreira — precária, mas ainda assim, uma barreira. A porta rangia. Iria ceder.
— Diz pro Atlas… que eu devolvi il Cotelo.
As luzes se acenderam. E apagaram por um segundo antes de pulsarem, como alguém que ainda recupera o fôlego.
A jovem se apoiou sentada no canto do elevador que descia a uma velocidade que fez seu estômago revirar. Ela cuspiu um líquido amarelo fedido após uma parada brusca que veio acompanhada de um “plim, pom” que não combinava em nada com a situação. A porta do elevador se abriu, rangendo da mesma forma que Gio gemia sempre que se levantava apressado.
Pela primeira vez na vida, Marina sentiu seus pés tocarem um chão liso. Sem nenhuma partícula, sem areia, sem sequer uma poeira para além das que ela havia trazido. Ela jogou seus calçados dentro do elevador e se regozijou a cada pisada gelada que dava naquele lugar.
Ela estava em um nível inferior da estação solar, um lugar onde a luz natural nunca havia chegado. O cheiro de metal e ozônio era ainda mais forte ali. Com cuidado, ela acendeu a tela rachada do tablet, usando-o como uma lanterna improvisada.
O som da tempestade não era mais uma preocupação.
— O núcleo. — ela falou em voz alta. Como se mais alguém estivesse ali para ouvi-la.
Havia mais painéis, pelo menos é o que aquelas estruturas esquisitas se assemelhavam. Ao invés de placas lisas e escuras, estruturas orgânicas. Pulsantes como veias sombrias sob a pele da estação. Grandes folhas — ou algo similar a isso. Elas se retorciam e se conectavam em uma teia complexa e, no centro, algo para além da compreensão humana. Era imenso, disforme e translúcido. Brilhando, emitindo silhuetas âmbar que se moviam como sopros inteligentes no ar.
Marina se aproximou em passos mansos. Fascinada ou aterrorizada?
Aquela coisa pulsava como um coração gigante, emitindo um som baixo e gutural num compasso de tempo que ela não conseguia acompanhar. Era errático.
Não podia ser apenas uma máquina. Estava vivo.
Um sussurro, fraco, mas inconfundível a despertou do transe tétrico. Vinha da estrutura pulsante. Era a voz do Atlas, mas também era outra coisa. Misturada, distorcida e — lá no fundo, distante como o horizonte — um pouco familiar.
— Marina… — a coisa a chamou.
A jovem arremessou o tablet para longe e uma das folhas o capturou, como se fosse um réptil esticando a língua para abocanhar um inseto. Era isso, ela refletiu antes de partir determinada para o centro de toda aquela estrutura biotecnológica.
Marina analisou as conexões procurando por um elo fraco. Tentando descobrir qual era o fluxo de energia.
Cabos. Grossos como troncos de árvores, emergiam de uma parede no canto do núcleo. Brilhavam em azuis e pareciam conectados à estrutura central da sala, onde folhas-painéis exibiam dados incompreensíveis.
Ela se abraçou a um desses cabos, parecendo uma criança enroscada no rabo de saia da sua mãe. Com toda a força que nem ela sabia que tinha, puxou um deles e um som gutural ecoou pela câmara.
A estrutura pulsante vacilou.
— Andiamo!
E assim ela seguiu, puxando cabo a cabo que encontrava. E a cada vez que fazia, as folhas — antes translúcidas — se tornavam cada vez mais opacas. Cinzas. Mortas. Desligadas.
Uma pequena janela abriu no teto, apresentando, distante, o céu cinza do que sobrara da aventura humana na Terra.
Nada havia mudado.
— Plim, pom… plim, pom…
Marina se assustou. O elevador piscava, chamando-a. Ela correu, vendo aquela coisa ficar cada vez mais opaca. Suas ramificações apagando-se, uma de cada vez.
O elevador subiu rápido, fazendo sua cabeça comprimir de uma forma tão forte que, quando acordou, já estava do lado de fora da estrutura que brotava no meio do deserto sem fim.
A tempestade inteligente parou. Ainda flutuava no ar, mas sem aquela volúpia de consumir tudo ao redor.
O céu continuava cinza, tudo ao redor ainda sem vida. O que ela esperava?
Marina escolheu uma direção qualquer e caminhou sem pressa. Todos os horizontes eram iguais. A areia ainda estava morna e ela afundava seus pés procurando conforto mais ao fundo do solo.
Estalidos metálicos cortaram o ar. A jovem parou e virou-se para trás.
A estação solar colapsava para dentro da terra em um buraco gigante de sílica. Como se estivesse sendo… engolida.
De dentro da depressão que se formava naquela parte do solo, emergiu uma forma.
Não era humana.
Não era máquina.
Era como um grande olho que se abria, sem pressa. Aquilo piscou um par de vezes antes de se dissolver nas nuvens.
Marina caminhou até os joelhos cederem. Caiu na areia já fria, ouvindo o silêncio. Não era ausência. Era outra coisa. Expectativa?
Ela ouviu, sem saber de onde — talvez de dentro dela — um chamado. Não era uma memória, porque estava acontecendo naquele instante: além do infinito eu vou voar sozinho com você.
Marina ergueu os olhos: as nuvens não eram nuvens. Ainda não estavam azuis, nunca foram, mas agora ela sabia. Eram escamas.
Algo se movia lá em cima, lento e sinuoso, como uma serpente trocando de pele na imensidão do cosmos.
Quando Marina voltou para suas mãos, contemplou sem pavor a sílica brilhando sob sua pele. Não doía. Nunca doeria. Ela sorriu — um sorriso que Gio teria achado bonito — e deixou-se afundar na duna.
Toda a Terra, reduzida a nada. A nada mais.