Uma lata velha de biscoitos, dinamarqueses, foi assim que tudo começou. Ela estava escondida debaixo da pia da cozinha, bastante enferrujada. Era uma dessas latas antigas, quando as coisas eram menos descartáveis.

O que primeiro me chamou atenção foram os desenhos de moinhos que julguei serem holandeses, mas só depois eu fui ler embaixo e vi que foi fabricado em Copenhague, 1991. Dentro dela, além do cheiro de mofo, havia um rolo de filme fotográfico da Kodak, sim, daqueles bem antigos de quando a gente usava filmes nas máquinas fotográficas. Ele estava bem enrolado em um plástico grosso, transparente.

Aquilo me intrigou. O apartamento tinha sido vendido com tudo dentro, os móveis e quaisquer coisas que achasse ali. Tesouros, baratas. Sim, foi assim que o cara da Imobiliária Saraiva me convenceu, "porteira fechada" ele disse. Eu nem sabia o que isso significava até que ele dia, aliás, eu e minha companheira compramos o apartamento por um acaso.

Depois da pandemia, a gente resolveu que era hora de finalmente trocar de carro. O que a gente tinha já iria fazer doze anos, mas quando vimos os preços de um carro zero, disse, brincando, que era melhor dar entrada num apartamento. E assim, de uma brincadeira, acabamos indo visitar diversos imóveis no bairro da Pituba em Salvador até dar de cara em um no conjunto Parque Júlio César.

O apartamento era o 1502 do Condomínio Edifício Cláudio. Mais de cem metros quadrados, três quartos e um preço muito baixo foram os atrativos. O único problema é que ele iria precisar de algumas reformas, mas estava abarrotado de móveis antigos, parecia um antiquário. E além dos móveis muitas fotos, dispostas em quadros, já amareladas, todas ali entre os anos 1980 e 1990 nas redondezas do prédio.

O dono havia falecido no início dos anos 2000 e o imóvel ficou rodando à procura de parentes, mas não encontraram ninguém e daí o corretor começou a me explicar toda a tramóia burocrática até eles conseguirem autorização para vender o dito cujo. Bom, tivemos medo, confesso, mas a gente encarou.

Hoje, quando recebemos visitas, as pessoas dizem que demos sorte. Tirei a maioria das coisas antigas, algumas vendi para lojas de antiguidades, outras doei, algumas joguei fora, mas a maioria eu deixei num dos quartos que funciona hoje como meu escritório já que trabalho em home-office.

Eu precisei mudar o nome de todas as pessoas envolvidas nas coisas que fui descobrindo quando puxei a ficha do antigo proprietário, um fotógrafo que vou chamar aqui de Raul, para evitar problemas judiciais. E a minha curiosidade se iniciou justamente no dia que eu resolvi revelar o tal filme que encontrei na lata de biscoitos.

Eu abri o saco plástico com cuidado e, dentro dele, tinha um pedaço de papel pequeno, retangular, com uma frase escrita à caneta "1991, a luz estava ótima nesse dia". Eu me arrepiei por completo, minha companheira fez pouco caso e ainda disse que nem era pra revelar as fotos, afinal, não eram minhas.

— Porteira fechada! — Eu disse, com o filme em minhas mãos.

Pesquisei do meu celular mesmo onde ainda se revelava fotos e achei um lugar no centro da cidade. Me desemboquei até lá, me senti numa aventura, levando o filme enrolado em uma caixa pequena de papelão que arrumei.

Deixei o rolo de filme para ser revelado e voltei para casa. Até me esqueci das fotos, só lembrei quando a mulher da lojinha me mandou mensagem no whatsapp, falando que as fotos estavam lá, me aguardando.

Eu sou um ansioso controlado, gosto de pensar assim, até pra escrever essa história, eu a escrevi capítulo a capítulo ao longo de cinco anos, pois algumas coisas eu só descobri dois ou três anos depois, pedindo ajuda a alguns amigos jornalistas que saíam catando notícias de 1991, mas parece que os anos noventa foram tão intensos, que as fofocas menores ou acontecimentos locais eram obliterados pela insanidade político-econômica daqueles anos. E falo tudo isso para acreditarem quando eu digo que peguei as fotos, um pequeno monte dentro de um papel grosso, mas me segurei e aguardei para vê-las só quando chegasse em casa. Por mais que tivesse curiosidade em desvendar os mistérios que ela me traria.

E quando cheguei em casa, deixei elas no escritório e fui cuidar da minha vida. Fui deixando as fotos ali, como um presente que já chegou, mas estava ainda esperando a data oficial para ser aberto.

Foi numa manhã de sábado que eu resolvi olhar as fotos, uma a uma. Eu acordei cedo, trouxe o monte para a mesa da sala e preparei um café. Esquentei sete pães de queijo na Air Fryer e aguardei pacientemente os dez minutinhos a 180 graus até eles estarem no ponto.

Tomei meu café enquanto ia puxando uma foto de cada vez. Foi como viajar no tempo. Raul tinha um talento nato para clicar o cotidiano, e acredito que elas deveriam estar num museu. As fotos tinham uma naturalidade que não vemos mais nos dias de hoje. Aliás, a gente sequer vê mais fotos atualmente, é tudo vídeo curto, pessoas gritando ou sendo humilhadas a troco de alguns likes.

A primeira delas mostrava duas crianças, do pescoço para baixo, brincando com aqueles iô-iôs da Coca-Cola. Um era da Fanta Laranja. Senti uma saudade gostosa daqueles anos. Outras eram fotos do Parque Júlio César naqueles anos, tinha uma cachorra vira-latas preta, com vários filhotes em uma caixa de papelão. Ela mostrava os dentes. Outra era de um casal sentado no banco na Praça Santos Dumont, a que chamam de Praça do Palito de Picolé por aqui. É que o monumento dela parece mesmo um daqueles palitos da Kibon que vinham no Fruttare antigo, de plástico.

As últimas fotos eram mais esquisitas e me fizeram sentir um negócio estranho dentro do peito. Era de uma jovem, bonita, com cabelos presos num coque meio frouxo, ela estava sentada na varanda de um apartamento igual ao que comprei. Olhei de perto, voltei, revirei, mas não era aquele apartamento. A posição da janela não era a mesma e só depois eu percebi que de lá, dava para ver o meu prédio, o Cláudio.

Foi daí que eu comecei a investigar as coisas e a criar essas histórias aqui. Eu fui até o prédio da frente, o Edifício Condomínio Marcelo e, de lá, acabei conhecendo uma mulher simpática que me contou um monte de coisa, me falou da jovem da foto, do seu trágico destino e de como ninguém deu a mínima para ela. Nem a polícia, nem os moradores do prédio, ninguém.

A mulher, que já tinha em torno de 50 anos, tinha um nome "jovem" e, por isso, escolhi nomeá-la aqui como Camila, por conta daquela música do Nenhum de Nós. Ela me confessou que apesar de ser uma "empregada doméstica" — era assim que chamavam na época —, ela considerava Vandinha sua amiga e as duas, algumas vezes, confidenciaram segredos íntimos.

Camila, que estava comigo numa noite de sexta no playground do Edifício Marcelo, segurou uma das fotos com cuidado e inclinou a cabeça, olhando mais de perto. Ela puxou um óculos de leitura da sua bolsa de oncinha, colocou na ponta do nariz me dizendo "vou virar uma velha agora, ignore" e então, depois de um ou dois segundos ela apontou para algo que não tinha visto na foto.

— Olha aqui, — disse, a voz cheia de algo que ficava entre a surpresa e o medo. Eu me aproximei e vi o que ela estava querendo me mostrar. Era um reflexo sutil no vidro.

Era o rosto de um homem. Desfocado, mas presente, como um espectro que tinha sido congelado ali por puro descuido. Ele olhava diretamente para ela.

— Olha a cara do disgraçado, não tá sorrindo. — Camila, completou.

Os pelos dos meus braços eriçaram, eu senti um calafrio subindo pela minha espinha torta e se espalhando pelas extremidades do meu corpo. Era meio óbvio que aquelas fotos fossem de Raul, mas ali a gente tinha uma prova mais concreta da última pessoa que esteve com ela em 1991, numa tarde que… bem, a data estava no negativo e era sim o dia em que Vanderleia "caiu" dezesseis andares.

Raul já havia morrido, não tinha mais o que fazer àquela altura, mas seja lá onde ele estivesse, ele sabia que a gente estava olhando para ele agora.

FIM.