Quando o Sol Esfriava
Ele sempre aparecia depois que o sol esfriava. Vinha todo arrumado, camisa de botão dentro da calça e sapato lustrado. Botava a mão no banco antes de sentar. Entre suas pernas, no chão que varria com os pés, deixava a sua mala azul marinho. Ficava lá até bem tarde, às vezes conversando sozinho, outras tantas contando estrelas.
No início as pessoas estranhavam, olhavam-no torto. Algumas paravam para falar com ele, mas Dionísio não era muito de conversa. Não era alto, nem baixo. Também não aparentava ter a idade que dizia que tinha. Sessenta ou setenta, nunca dava para ouvir porque ele respondia baixinho. “Moro aqui pertinho, minha filha, preciso de nada não, obrigado”, era sempre dessa forma que me respondia quando lhe oferecia algo. Um dia ele aceitou uma garrafinha de água mineral, mas mesmo assim não me rendeu muito papo. “Estou esperando”. O quê, ele nunca dizia.
Com o passar do tempo, seu Dionísio não era mais um estranho sentado na praça. Ele já fazia parte dela e as pessoas acostumaram-se com sua presença. Virou até ponto turístico do bairro. Os jovens paravam ao seu redor para fazer aqueles vídeos de três segundos que nunca vou entender. Dançavam, faziam caretas e gesticulavam. Dionísio mal se mexia. Mesmo em dias de chuva ele estava lá, no mesmo lugar de sempre. Puxava da sua mala uma daquelas sombrinhas compactas acionadas por voz, que se abriam até ficar do tamanho de um daqueles sombreiros de praia gigante, e seguia impassível na sua eterna dança. Apertava o pulso, as horas plotavam no ar. Antes do relógio holográfico sumir, voltava a olhar para cima.
Foi numa noite dessas de lua gigante que ele foi visto pela última vez. O céu estava limpo e dava para ver um sem fim de constelações e estrelas. A lua iluminava a rua mais do que os drones de iluminação pública. Lembro que estava voltando da minha sessão de hipnose holográfica naquele dia. Sentei ao seu lado por alguns minutos sem dar um pio, respeitando o seu silêncio. Ele cheirava a alfazema e seu rosto esboçava um sorriso. Lembro da paz que aquela expressão me trouxe.
“Já vou seu Dionísio, boa noite”, falei tocando seu ombro.
“Pra você também, tchau”, ele respondeu segurando a minha mão.
No dia seguinte, pela primeira vez em meses, o sol esfriou mas ele não apareceu. Nem a polícia robótica, nem os agentes humanos de investigação especial conseguiram descobrir o que aconteceu. Drones de reportagem passaram dias pelas ruas escaneando todos os cantos. Vigílias foram feitas na praça mas nenhuma pista surgiu.
Seu Dionísio já tinha se tornado lenda e o banco da praça voltou a ficar vazio. Era uma daquelas tardes de tempo bom e firme. Esperei o sol esfriar, conferi se estava tudo na minha mochila e fiz minha última revisão mental antes de trancar a porta de casa.
Uma brisa vinha da orla e dava um abraço gelado em minha nuca. Botei a mão no banco, estava morno o suficiente para não me preocupar. Achei o chão muito sujo e coloquei a mochila no meu colo. Comecei pelas três marias e, a partir daí, fui tentando identificar as outras constelações. Algumas pessoas passavam revirando os olhos, outras tantas apertando as sobrancelhas.
Não ligava para elas, eu só precisava mesmo era esperar.